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Revista EAC - Roubo de cargas afeta emocionalmente os caminhoneiros

Roubo de cargas afeta emocionalmente os caminhoneiros


Mesmo sendo apaixonados pelo que fazem, os caminhoneiros enfrentam uma série de desafios e dificuldades no exercício da profissão. A falta de segurança nas estradas é um dos principais desafios, afinal, eles cruzam as rodovias levando cargas de muito valor pelos quatro cantos do país, o que acaba por chamar a atenção de criminosos. De acordo com o último levantamento da Confederação Nacional do Transporte – CNT sobre o perfil dos caminhoneiros, os assaltos e roubos são a maior dificuldade encontrada por 64,6% dos caminhoneiros entrevistados.


A Pesquisa CNT Perfil dos Caminhoneiros 2019, com informações gerais sobre o profissional e a sua atividade, traz ainda a informação de que cerca de 7% deles relataram que já tiveram o veículo roubado pelo menos uma vez nos anos de 2017 e 2018. Além disso, 49,5% desses profissionais recusaram a viagem por conta do risco de roubo/assalto durante o trajeto.


O custo do combustível aparece como o segundo maior entrave vivenciado pelos motoristas (35,9%). Os trabalhadores também destacam como ameaças à profissão no futuro o baixo ganho (50,4%), a baixa qualidade da infraestrutura (20,9%) e a ausência de qualificação profissional adequada (15,6%).


Para tratar dessas questões que geram tanta tensão aos caminhoneiros, a procuramos a psicóloga Adriane d’Anniballe. Em entrevista exclusiva, ela alerta que a violência sofrida pelos profissionais pode causar problemas psicológicos como síndrome do pânico, depressão e ansiedade, “podendo inclusive ter outras, como o TEPT (Transtorno de estresse pós-traumático), que pode ter seus sintomas confundidos com os de depressão e ansiedade”. Como forma de amenizar seus efeitos, de acordo com Adriane d’Anniballe, o ideal “adotar medidas que tragam melhora na qualidade de vida equilíbrio físico e emocional”.


Veja agora a íntegra da entrevista:




Com base nesses dados, qual o impacto psicológico que o roubo de cargas pode causar nos caminhoneiros?

Como informado, o roubo de cargas é uma das situações que geram maior tensão nos caminhoneiros, tanto pelo estresse da situação que, em muitos casos, os expõem ao risco de vida, quanto pelas consequências geradas após o episódio. O evento, independente da forma ocorrida, gera mudanças internas. O roubo em si é um ato perturbador, e quando há a presença do caminhoneiro, pode desencadear sintomas imediatos e outros que só podem ser identificados apenas meses depois do acontecimento. Podemos pensar que a simples lembrança da situação aumenta o nível de estresse e ansiedade, além de outros possíveis sintomas desencadeados pela maneira como ocorreu o roubo: se houve violência física e/ou psicológica, com ameaças verbais e armas. O medo gerado pela possibilidade de um novo roubo também gera ansiedade, e essa apreensão é frequentemente acompanhada de sintomas corporais como aumento de sudorese, tensões musculares entre outras. Todos esses sintomas que aparecem após o roubo, podem ser temporários ou persistentes, e podem até vir a impedir que o caminhoneiro continue atuando em sua profissão.


Síndrome do pânico, depressão e ansiedade seriam algumas dessas consequências?

Sim, essas são algumas das consequências, podendo inclusive ter outras, como o TEPT (Transtorno de estresse pós-traumático), que pode ter seus sintomas confundidos com os de depressão e ansiedade. Na depressão, em regra, a pessoa apresenta o humor deprimido, tristeza, desinteresse geral ou falta de prazer, fadiga ou perda de energia quase todos os dias, alteração significativa de peso para mais ou para menos, sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que no caso dos caminhoneiros podem se culpar por pensarem que não tiveram atenção necessária ou que poderiam ter feito algo para evitar o roubo), perda de concentração e até mesmo pensamentos de morte.

A ansiedade é vista como uma antecipação de uma ameaça futura e o medo é uma resposta emocional a essa ameaça, que pode ser real ou sentida. Claro que esses dois estados se misturam, mas também se diferenciam, já que o medo é percebido no momento de perigo imediato, e a ansiedade é mais frequentemente associada à preparação para um perigo futuro. No medo, o caminhoneiro se vê em situação de possível risco do roubo; na ansiedade, ele antevê internamento risco de roubo de carga, sem a ameaça real.

Na ansiedade, os ataques de pânico se destacam como um tipo particular de resposta ao medo. São comuns sintomas como coração acelerado, taquicardia, sudorese, sensações de falta de ar ou sufocamento, dor no tórax, tontura, calafrios, sensações de formigamento, medo de perder o controle ou de morrer.

No TEPT – Transtorno de estresse pós-traumático – a pessoa que participou ou mesmo testemunhou a situação do roubo de carga, percebe que teve a vida ameaçada e experimenta medo, terror ou impotência. Ela revive a situação diversas vezes e sem controle através de recordações, flashbacks ou pesadelos dolorosos e angustiantes. É um sofrimento psicológico com reações corporais intensas ou prolongadas que ocorrem quando a pessoa se vê diante situações ou sinais que lembrem a experiência. Como a cena de um filme que passa várias vezes na cabeça. Sentem dificuldade de concentração, perdem interesse em atividades que antes gostavam, se afastam dos outros, ficam irritados, tem sono agitado, e podem ter esses sintomas por meses após o acontecimento.


O estresse gerado pelo medo do roubo de carga pode causar a Síndrome de Burnout no caminhoneiro?

O estresse gerado pela exaustão física, emocional ou mental, acompanhado de motivação diminuída, queda de desempenho e atitudes negativas em relação a si e aos outros são alguns dos sintomas da Síndrome de Burnout. Os caminhoneiros trabalham sob pressão por praticamente o tempo todo em função de tempo estipulado para entrega de carga, por dirigir em estradas mal sinalizadas e malconservadas, e que possibilitam acidentes, quebra de veículos e possíveis assaltos e roubos de carga. Além disso, passam horas sentados ao volante provocando em muitos casos, sedentarismo, má alimentação e falta de rotinas diárias e de ciclos de sono. Somam-se à pressão do trabalho, os maus hábitos e o distanciamento da família. Por rodarem longas distâncias mantém-se muito tempo fora do círculo familiar, social e afetivo, contribuindo no aumento de estresse e esgotamento emocional, deixando o indivíduo sem suporte e sem fontes de prazer. É comum também adotarem o uso de álcool e drogas para entorpecimento das sensações negativas, da saudade dos familiares, para afugentar o medo ou diminuir a ansiedade, o que junto à direção é uma fórmula de autodestruição.


Que medidas o profissional pode tomar para amenizar seus efeitos?

É necessário adotar medidas que tragam melhora na qualidade de vida equilíbrio físico e emocional. Acertar os horários e tempo de sono é de extrema importância para regular os ritmos do corpo. Peso corporal, nível de estresse, prazer e outros estão diretamente ligados à qualidade e à quantidade de sono. Enquanto dormimos o cérebro dá conta de armazenar, memorizar e reorganizar as informações e sensações vividas durante o dia. Uma boa noite de sono faz toda a diferença no humor e na carga de energia para vivenciar o próximo dia.

Alimentação saudável que inclua principalmente alimentos in natura e frescos, evitando os processados e com muita gordura, além de intervalos e porções regulares. Procurar dar pausas sempre que possível, levantando-se e fazendo movimentos de espreguiçar e alongar o corpo.

Manter, com frequência, contato com a família e amigos. Aproveitar a tecnologia e fazer chamadas de vídeo em suas pausas, de forma que possam se ouvir e, também, se ver. Assim, é possível estar mais presente e acompanhar mudanças e o dia a dia de quem se ama.

Viver sempre no presente. Apenas ele existe. O passado não há como mudar e o futuro ainda está por vir. Fazer o que está ao alcance, o que é possível. Não é possível resolver o que não depende de si. É preciso ter isso em mente. Manter-se no agora reduz o nível de ansiedade, que geralmente está ligado ao futuro, o que está por acontecer. Não há como controlar, apenas esperar ele chegar, e viver o presente até que ele chegue. O passado já aconteceu. Deixou sentimentos e sensações que podem ser revisitadas hoje, não para se angustiar, mas para aceitar e perceber o que o passado significa, e como pode usar essa experiência para quem se é agora.


A senhora sabe se existe algum tipo de tratamento específico para os caminhoneiros?

Existem vários tratamentos dos quais os caminhoneiros podem se beneficiar. A psicoterapia é muito indicada para que possam falar de seus medos, ansiedades, sentimentos e pensamentos que tiverem, em um lugar seguro, onde terão a certeza de serem ouvidos, acolhidos e compreendidos, onde entram em contato com os sentimentos, memórias, percebem como seus corpos reagem e aprendem como lidar com suas feridas. A fala é uma ferramenta eficaz para tratar do sofrimento humano. Podemos rotular os sentimentos e sensações e olhá-los como uma lista de sintomas, enquadrá-los como Síndromes ou Transtornos, mas cada um tem experiências próprias mesmo que passem pela mesma situação traumática. Sua história de vida, familiar e cultural. Se pensar no Brasil inteiro, quantas culturas diferentes estão inseridas aqui. Isso tudo constrói de forma única cada pessoa, cada caminhoneiro. E para cada um haverá uma forma de abordar essas consequências emocionais, afetivas, comportamentais, e a psicoterapia dá essa possibilidade de enfoque pessoal.

Em muitos casos, de acordo com a gravidade dos sintomas, além da psicoterapia é necessário também um tratamento medicamentoso. E a parceria entre médico psiquiatra e psicólogo potencializa os resultados do tratamento. Há também outras estratégias que podem ser adotadas como coadjuvantes no tratamento: exercícios de respiração, meditação e atividade física. Existem hoje vários aplicativos e vídeos que ensinam como fazê-los.

Em caso de o caminhoneiro ser contratado, o apoio dado pela empresa é de grande importância para o tratamento e para recuperação. O afastamento de suas funções por licença médica ou invalidez precisa ser visto como parte da profissão e não como um estigma que iniba o caminhoneiro de buscar ajuda por se sentir julgado, discriminado ou por medo da perda do emprego. Assim como ele, vários tiveram experiências semelhantes e outros poderão passar pelo mesmo. Esse acolhimento e abertura para troca de experiências tornam-se benéficos para todos os envolvidos no processo.

Em função da pandemia pela Covid-19, a disseminação do uso da internet para diversos fins favoreceu os caminhoneiros em outros aspectos além de possibilitar manter contato maior com a família. Podem contar também com um acompanhamento psicoterápico e médico mesmo à distância. É possível aos caminhoneiros aproveitarem uma de suas pausas no dia para descanso e alimentação e reservar uma hora para cuidar de sua saúde mental e realizar uma sessão de psicoterapia online e poder lidar com seus medos e ansiedades e até mesmo preveni-los.


Contato da psicóloga Adriane d’Anniballe

21 99809-2169

danniballe.psi@gmail.com


Fonte: Revista Eu Amo Caminhoneiro

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